O Conselho Superior da Magistratura (CSM) vai analisar a hipótese de alterar o Estatuto dos Magistrados Judiciais, ponderando a possibilidade de proibir a participação de juízes nos órgãos de justiça do desporto profissional, nomeadamente no futebol.
Fonte do CSM adiantou à Lusa que, na reunião de hoje, foi deliberado criar um grupo de trabalho, constituído por dois vogais, para”estudar o enquadramento jurídico relativo à participação de juízes nos órgãos de justiça do desporto profissional”.
Este estudo, acrescentou a fonte, visa regular esta matéria no âmbito do Estatuto dos Magistrados Judiciais (EMJ), “ponderando, designadamente a hipótese de proibição de participação de juízes” nos conselhos de Justiça e de Disciplina desportivos.
Na mesma reunião, o CSM decidiu relembrar à classe “anteriores deliberações a desaconselhar a participação nos órgãos de justiça e disciplina do futebol profissional, dadas as consequências negativas que, com frequência, daí resultam para a imagem dos magistrados junto dos cidadãos”.
Questionada se a deliberação do CSM resultou directamente da polémica levantada pelo recente “caso Mateus”, que abalou o futebol português, a fonte do CSM explicou que este órgão “está atento à realidade e à credibilização do sistema judicial”.
A semana passada foi assinado o "pacto" sobre a justiça. Como se previa, os "operadores judiciários" fizeram logo um primeiro coro com a política no sentido do aplauso. Uns dias depois, alguns deles - juízes, por interposto sindicato -, depois de lerem a coisa com mais atenção, começaram a torcer o nariz. Se Deus quiser, não há-de ficar por aqui. O "pacto" foi uma resposta circunstancial da "política" ao susto que apanhou com alguns processos. Por isso, ele trata mais da "justiça formal" do que da "justiça material" que, previsivelmente, continuará ao sabor do caprichismo interpretativo que cada um lhe quiser dar. É por isso que, apesar do "pacto", todos os dias saem cá para fora "peças" de um processo chamado "Apito Dourado". O futebol está tão entranhado em praticamente tudo o que mexe como uma leucemia incontrolável. A naturalidade com que se aceita a permanência de determinados indivíduos à frente de instituições - os clubes de futebol - que passam por ser entidades de utilidade pública, é a mesma com que se encara a divulgação de peças processuais - escutas telefónicas - como arma de arremesso entre os diversos "gangs" da bola. Já nem sequer vale a pena falar dos que se eternizam, com a complacência dos poderes públicos, nos organismos oficiais e oficiosos do futebol (federação e liga). Para além de objectivamente medíocre, esta gente é perversa e exibe diariamente, com nítido sentido de gozo, a sua impunidade. Por melhores que sejam as intenções do "pacto"e o sonho presidencial de "um regime de sonho", a realidade encarregar-se-á de os desmentir metodicamente. Acreditem. Não vale a pena.
In Portugal dos Pequeninos
Projecto de Revisão do Código Penal

Parecer sobre o projecto de alteração do Código Penal
Texto do parecer (em *.doc)
Autoria de Drs. José Mouraz Lopes e Pedro Soares de Albergaria, Juízes de Direito
Extraído do sítio da ASJP
O Sindicato dos Magistrados do Ministério Público (SMMP) defendeu uma alteração do actual modelo de formação de magistrados e advogados, que deve ser inserida na reforma do sistema de Justiça e das carreiras forenses.
Num parecer ontem divulgado e intitulado "A Reforma da Formação de Magistrados e Advogados", o SMMP propõe também, entre outras ideias, a "recriação de uma cultura judiciária comum", que permita aos candidatos a profissionais do foro terem "uma fase inicial de aprendizagem conjunta".
"Um tronco comum que lhes permita depois fazer uma opção profissional descomplexada e, simultaneamente, compreender os valores e códigos de intervenção de cada profissão forense", pode ler-se no texto, citado pela agência Lusa.
Ainda segundo o documento da direcção do SMMP, faz "hoje todo o sentido pensar no aproveitamento do actual 5.º ano de Direito - que desaparecerá por via da chamada "Carta de Bolonha" -, tendo em vista a criação desse tronco comum de formação das profissões forenses".
"Um período organizado conjuntamente por faculdades escolhidas para o efeito, pelo Centro de Estudos Judiciários (CEJ) e pelo Centro de Formação da Ordem dos Advogados, que tivesse como objectivo a aproximação directa dos licenciados às realidades das profissões judiciárias", lê-se no parecer do sindicatol liderado por António Cluny.
O PS e o PSD fizeram um acordo para a justiça que só o futuro se encarregará de dizer se valeu a pena ou não. Há medidas ali previstas que vão no caminho certo, mas persiste uma ausência que condiciona qualquer diagnóstico sobre a justiça e que se chama combate à corrupção.
Esta ausência conduz-nos, de novo, à velha tese da influência decisiva do "Bloco Central dos Interesses" na justiça. Ela é consistente se pensarmos que em três décadas o sistema judicial foi incapaz de concluir investigações manifestamente letais para alguns políticos, de incomodar as lideranças partidárias com inquéritos que soubessem enquadrar os factos na sua relação com o financiamento ilegal dos partidos e o mais grave dos crimes que lhe é adjacente, a corrupção.
Os factores de obstrução foram do ininterrupto delírio legislativo, fazendo com que o chamado "legislador político" - essa mítica e abstracta entidade que vagueia ao sabor da demagogia partidária pelos escombros das promessas eleitorais - transformasse o Parlamento numa mera câmara de ressonância das intenções de cada Governo, até à incapacidade das magistraturas e polícias em lidar com os bloqueios legais. Os exemplos são intermináveis: o atraso na consagração do crime de tráfico de influências, o sigilo bancário, a blindagem dos cargos de nomeação política, o estatuto de imunidade dos próprios políticos.
A descontinuidade de políticas dominou de legislatura para legislatura e cada lei nova tanto podia reflectir projectos sérios como a necessidade de fazer uma lei à medida dos interesses de poderes fácticos ou até puramente pessoais, para poder responder aos compromissos que vinham de cada campanha.
A questão mais decisiva, porém, sempre se colocou ao nível de um estrangulamento comandado à distância dos órgãos de polícia e das magistraturas. Em 1990 o combate à corrupção estava na Idade Média, mas também ainda verdadeiramente de lá não terá saído. A PJ não tinha formação específica, não tinha agentes especializados nem peritos. O Ministério Público não tinha magistrados suficientes e com adequada formação, nem peritos e meios técnicos. O poder político raramente se incomodou com isso e, pelos vistos, continua a não pestanejar sobre a matéria. Pelo contrário, devolveu para o campo das magistraturas a responsabilidade pela falta de resultados. Mas uma coisa estas três décadas provaram: não há reforma que resista a uma sucessão de casos de corrupção envolvendo figuras gradas da política ou da economia por resolver, seja pela prescrição ou pelo arquivamento. Se os tutores do presente pacto não quiserem olhar para isso, estão meramente a assinar acordos para ganhos políticos de curto prazo. Sabendo que daqui por uns anos continuaremos a falar de uma justiça de ricos e pobres e da sua profunda crise.
O combate à corrupção foi ignorado no recente pacto para a Justiça, defende Maria José Morgado, que diz que o problema está na lei e não na investigação. O presidente da Associação Sindical dos Funcionários de Investigação Criminal concorda.
Maria José Morgado entende que o combate à corrupção foi ignorado no recente pacto para a Justiça assinado por PS e PSD, o que faz com que estes dois partidos estejam a «atirar o lixo para debaixo do tapete».
Em declarações à TSF, a antiga directora da PJ considerou lamentável o facto de os políticos não darem atenção a uma matéria «relevante para o desenvolvimento do país e para uma política séria e honesta».
A magistrada criticou aqueles que entendem que o problema do combate à corrupção não está nas leis, mas sim na investigação criminal, considerando que esta investigação «não pode fazer milagres se não houver prevenção e um acordo político anti-corrupção».
O presidente da Associação Sindical dos Funcionários de Investigação Criminal também considera que o recente acordo para a Justiça foi uma «oportunidade perdida» no que à luta contra a corrupção.
Ouvido pela TSF, Carlos Anjos admitiu alguns problemas na área da investigação, considerando um «disparate enorme» o facto de uma progressão na carreira estar dependente do número de condenações em tribunal.
«O problema está efectivamente na lei, mas está também na aplicação que os tribunais fazem da lei. Mesmo com a actual lei parece-nos que se podia ir mais longe», acrescentou este dirigente da ASFIC.
Carlos Anjos lembrou ainda que ainda ninguém foi condenado nos tribunais pelo simples facto de oferecer ou de prometer dar alguma coisa em casos de crimes de corrupção, tal como indica a nova lei.
O presidente da ASFIC pediu ainda a especialização dos vários agentes judiciais para o crime económico, uma área que admitiu ser «muito complexa», afirmando que se isso não for feito os resultados continuarão próximos dos actuais neste tipo de crimes.
«Quer o juiz quer o Ministério Público não podem julgar um processo de assalto à mão armada, um processo de homicídio e pelo meio um processo com 40 volumes de crime económico. É humanamente impossível», concluiu.
O decreto-lei que ditou o fim da distribuição do Diário da República (DR) em papel pode ser ilegal por pretender revogar um artigo do estatuto dos juízes que só pode ser alterado pela Assembleia da República por uma questão de hierarquia das leis, informa hoje o Correio da Manhã.
Os juízes dizem ainda que as alterações prejudicam o seu acesso à legislação, uma vez que o formato online do Diário da República é limitado na função de pesquisa. Alegam ainda que para aceder à versão online do DR é necessário possuir ligação à Internet e um computador, o que não acontece, por exemplo, nos tribunais superiores, e queixam-se também da lentidão do acesso à rede.
Desde 3 de Julho que os magistrados deixaram de receber o exemplar do jornal oficial do Estado, passando a aceder unicamente à versão electrónica.
O presidente da Associação Sindical dos Juízes Portugueses, António Martins, em declarações ao jornal, sublinha a necessidade de os magistrados terem acesso ao Diário da República, lembrando que se trata de um instrumento de trabalho.
O combate à corrupção não consta do pacto assinado entre o PS e o PSD. De acordo com o Diário de Notícias, esta matéria ficou de fora do acordo relativo à revisão do Código Penal.
Nenhum dos cinco pontos do pacto entre PS e PSD para a reforma da Justiça indica que o combate à corrupção foi matéria de entendimento entre os dois partidos. Desta forma, não são tidos em conta os recentes três projectos-lei apresentados na Assembleia da República pelo deputado socialista João Cravinho sobre esta matéria.
De acordo com o Diário de Notícias, nem o PS nem o PSD apresentaram justificações oficiais para a ausência do combate à corrupção no documento. Ainda assim, os socialistas dizem, oficiosamente, que “não se mexeu em nada porque não era preciso”.
Segundo o texto divulgado na sexta-feira, a revisão do Código Penal consagra a responsabilidade penal das pessoas colectivas. Outro dos pontos focados prevê que a legislação portuguesa se adapte à legislação internacional em matérias como o direito das crianças, combate ao tráfico de pessoas, exploração sexual, pornografia, prostituição infantil e criminalidade organizada.
O texto conta ainda com o “reforço da aplicação de penas alternativas à privação de liberdade, reservando-se a prisão para as situações de criminalidade especialmente grave”.
O clima de aparente tranquilidade que se vive na Polícia Judiciária pode acabar nos próximos dias, quando for conhecida a proposta do Governo para a nova Lei Orgânica desta Polícia de investigação. Uma das medidas que promete mais controvérsia é alteração das regras das promoções. As negociações entre o Ministério da Justiça e a direcção da PJ já começaram e, ao que apurámos, devem estar concluídas até ao final da semana. Já terá sido mesmo solicitado aos sindicatos propostas para a revisão da Lei Orgânica.
O ministro da Justiça, Alberto Costa, pretende avançar com três medidas de fundo: pedir mais disponibilidade funcional aos investigadores; extinguir categorias e departamentos; e alterar as normas de progressão nas carreiras. Para evitar ‘guerras’ numa altura em que foi assinado o pacto com a oposição para a Justiça, o Governo tem procurado manter em segredo as linhas orientadoras do documento. Mas a polémica pode estar para rebentar. Segundo fontes da PJ, vai ser difícil convencer os inspectores a estarem mais tempo disponíveis para o trabalho de investigação quando continuam por resolver os problemas com o pagamento de horas extraordinárias.
O mesmo acontecerá com a previsível dilatação do número de anos exigidos para as subidas de escalão, que permitiriam ao ministro pôr um travão nas promoções e poupar milhares de euros. O mesmo sucedendo com o possível encerramento de alguns departamentos da PJ espalhados pelo País. A extinção de cargos que foram criados sem as respectivas categorias pode gerar também protestos. Como estas medidas têm sido debatidas num meio muito restrito, Carlos Anjos, presidente da Associação de Sindical de Funcionários de Investigação Criminal da PJ (ASFIC), desconhece oficialmente as intenções do ministro da Justiça. Mas lança do aviso: “Não vamos aceitar que a operacionalidade da PJ seja posta em causa.”
Segundo o dirigente, a PJ viveu “um ano muito turbulento, com muitos cortes orçamentais”. Neste momento, acredita “que as coisas estão no bom caminho”, mas mantém-se “de pé atrás” em relação ao futuro da instituição. Um dos problemas recorrentes é a falta de verbas para as despesas nas actividades operacionais. A mais recente envolveu operacionais da PJ de Coimbra, que tiveram de pagar, do próprio bolso, portagens e refeições aos detidos, durante a operação em que apanharam 7,5 milhões de doláres falsos e prenderam sete suspeitos.
De acordo com Carlos Anjos, a situação “já foi resolvida” e ficou a dever-se a “um problema pontual de tesouraria”, ao contrário do que foi anunciado: a existência de dificuldades orçamentais.
A direcção da PJ recusa comentar o assunto, limitando-se a informar que as novas linhas orientadores “serão conhecidas a seu tempo”.
VIVER COM ADIANTAMENTOS
A entrada em funções do novo director da Polícia Judiciária, Alípio Ribeiro, em Abril, coincidiu com o anúncio do ministro da Justiça, Alberto Costa, de reforçar o orçamento da PJ com 8,4 milhões de euros. Segundo a direcção da Judiciária, já foi recebida uma verba de 1,5 milhões, por conta deste montante. Quando entender necessário, a instituição “solicitará novas verbas”. A PJ desmente que a verba orçamentada para as despesas correntes tenha sido esgotada em Julho, como chegou a prever a Associação Sindical dos Funcionários de Investigação Criminal (ASFIC), e confirma que está a receber duodécimos mensais dos cofres do Ministério da Justiça, na valor de 474 mil euros. Até agora, foram adiantadas três tranches. “Além dos duodécimos normais, foram antecipados três”, o último dos quais este mês, revelou a PJ.
UM ANO DE CONVULSÕES
O início de 2006 encontrou a Polícia Judiciária (PJ) numa fase convulsiva, que durou até Abril, com a tomada de posse do novo director nacional, Alípio Ribeiro, após a demissão do juiz desembargador Santos Cabral. Surgiram polémicas como a de retirar a Interpol e a Europol da alçada da PJ para passar para o Gabinete Coordenador de Segurança, bem como uma crise económica, que levou à quase paralisação da instituição. Ao mesmo tempo, o ministro da Justiça, Alberto Costa, acusou a direcção de má gestão e falta de eficiência, numa altura em que se sucediam as greves do pessoal de investigação criminal, sobretudo na área do combate à corrupção e crime económico. O recuo do Governo sobre a questão Interpol/Europol e uma dotação de 8,4 milhões de euros, com a substituição dos directores nacionais, Santos Cabral e Mouraz Lopes, acalmou a situação, mas subjacente ficaram outras: as horas extraordinárias, fecho de departamentos e guerra de competências com outras forças policiais.
MEDIDASDISPONIBILIDADE
A nova Lei Orgânica da PJ prevê uma maior disponibilidade dos inspectores para a investigação. A medida não será bem recebida pelos investigadores com horas extraordinárias em atraso, a quem agora é pedido ainda maior esforço.
PROMOÇÕES
A intenção de alterar as regras de progressão nas carreiras promete contestação. O objectivo do Governo pode ser atrasar as promoções e poupar uns milhares de euros aos cofres do Ministério da Justiça.
EXTINÇÕES
Na revisão das linhas orientadoras da Polícia Judiciária, Alberto Costa prevê a extinção de alguns cargos criados sem a carreira correspondente. O encerramento de alguns dos departamentos de investigação criminal é outra das intenções do ministro, para racionalizar os custos.
Nestes últimos dias surgiu mais uma magnifiente campanha de marketing governamental para a justiça. Começou com um pacto "secreto" para a justiça, onde PS e PSD consensualmente, em nome de uma justiça melhor (leia-se em nome de uma supremacia do poder político sobre o poder judicial).
Inopinamente, alguns batem palmas ao consenso alargado para a área da justiça.
Sinceramente, de imediato torci o nariz.
Disse para mim, não há-de vir nada de bom!?
Espero para ver, céptico, claro.
Temos mais de 30 anos de democracia a intercalar entre a PS e PSD, ocasionalmente o CDS-PP em coligação.
Em suma, temos dois partidos responsáveis pelo estado em que se encontra o país, actualmente movidos por uma luta imaginária contra o déficit.
Em nome deste déficit tudo tem justificação. O denominado "programa legislar melhor" deveria ser apelidado de "programa legislar com mais ilegalidade e inconstitucionalidade".
A cumplicidade entre PS e PSD tem vários anos, senão veja-se as nomeações para o Banco de Portugal e CGD, em que intercalam à esquerda e à direita em busca da reforminha milionária. Afinal, apertar o cinto não é para todos.
Já alguém disse que o poder judicial é incómodo ao poder político e, ora lá está PS e PSD são o poder político incomodados pelo poder judicial, "mortinhos" por abafar uma justiça independente.
O problema da celeridade gira em si mesmo. Em nome da celeridade o poder político legisla inopinadamente, aprovando reformas de arrepiar todos os pêlos do corpo, numa base de "vamos ver o que vai dar". A justiça é um problema demasiado sério para se fazerem experiências. Não se ouve quem diariamente lida no "terreno", quem vai utilizar as normas no dia-a-dia, os operadores judiciários.
A última admissão de oficiais de justiça foi em 2000, e desde aí muitos foram aqueles que se reformaram e correram às reformas antecipadas com intuito de não serem prejudicados com a nova fórmula de cálculo.
Existem Tribunais com pendências de bradar aos céus.
Os servidores de alguns - muitos - Tribunais estão abarrotar pelas costuras. Computadores que demoram 15 minutos para iniciarem e 4/5 minutos para editar um documento.
Nem se fala dos programas dependentes da contabilidade. Onde pára a banda larga!
Destarte, sou completamente céptico a este pacto, pois acredito que seja um rude golpe do poder político unido com o fim de politizar e manipular o poder judicial, mormente nos Tribunais superiores.
Vira o disco e toca o mesmo, agora tocam os dois (PS e PSD) do mesmo lado do disco...
O Ministério da Justiça pretende colmatar a falta de agentes de execução (cobrança de dívidas e penhoras), facultando o acesso à profissão a licenciados em Direito, nomeadamente advogados, a partir de 2007.
Em declarações à Agência «Lusa», o ministro da Justiça, Alberto Costa, disse que «no início de 2007 os licenciados em Direito e advogados vão poder actuar como agentes de execução» na cobrança de dívidas e penhoras, devido a falta de agentes neste tipo de acção em várias zonas do país.
O ministro esteve esta segunda-feira presente na inauguração do Juízo de Execução de Oeiras, onde trabalham três magistrados e onze funcionários judiciais.
«O Juízo de Execução de Oeiras juntou-se ao de Lisboa, Porto, Guimarães, já inaugurados, prevendo-se que até ao final do ano entre em funcionamento o da Maia e, no início de 2007, o de Sintra», disse.
Segundo o governante, «os Juízos de Execução duplicaram» desde a entrada em funções do governo socialista, em Março de 2005.
«Nos últimos sete anos houve um crescimento constante das acções executivas e as medidas tomadas pelo Governo pretendem estancar esse aumento das pendências», referiu Alberto Costa.
Actualmente, a quase totalidade dos agentes de execução são solicitadores, sendo obrigados a frequentar um curso de formação específico de seis meses e a ter um escritório próprio.
O Pacto, no ponto 3 da secção dedicada ao "Acesso à Magistratura" consagra:
"A formação deve comportar, antes do período de estágio nos tribunais, um período obrigatório de estágio em outras áreas (...)".
Até aqui, nada a apontar. A ideia não é nova, podendo este estágio trazer alguma "mais-valia" de conhecimentos aos novos juízes.
Na área do direito penal, mas não só, estágios junto dos órgãos de polícia criminal, junto da administração fiscal ou junto das associações de apoio às vítimas, à população prisional ou ao cidadão arguido, entre outros, contribuiriam, certamente, para a formação dos magistrados.
Em benefício da formação para o exercício da judicatura em qualquer das jurisdições, estágios junto da Segurança Social, da Prevenção Rodoviária Portuguesa, de centros de reabilitação de sinistrados, de associações de defesa do consumidor, de associações promotoras da igualdade ou da defesa do ambiente, de sindicatos e associações patronais seriam bem-vindos.
Mas o texto do mencionado ponto 3 continua " (...) um período obrigatório de estágio em outras áreas, sejam a advocacia, a banca, os seguros ou outras áreas empresariais, integrado no curso, e que desenvolva diferentes perspectivas que favoreçam o exercício posterior da magistratura".
Se a menção especial feita à advocacia se justifica - já agora: se vai haver uma separação de raiz entre as magistraturas, não se justificava que os futuros juízes também estagiassem junto do MP? -, o esquecimento de toda a sociedade civil que está para além da vida empresarial e de todo o sector público é... curioso.
Com prudência quiçá excessiva, surgem, também por juízes, as primeiras análises, ainda necessariamente superficiais, ao Pacto para a Justiça, subscrito pelos dois maiores partidos políticos portugueses.
Devo dizer que, genericamente, entendo que as medidas propugnadas apontam no sentido positivo, indiciando soluções que há muito se perfilam como adequadas e de implementação urgente.
É certo, porém, que o unanimismo que decorre de um acordo entre duas facções que representam mais de setenta e cinco por cento do eleitorado prejudica um debate crítico sobre a bondade do que se propõe e convida à acéfala aceitação do que provém de uma imensa maioria.
O habitual circo mediático devidamente encenado, a par de uma comunicação social que logo adoptou o pacto como seu, prejudica também a reflexão crítica, sendo os defeitos que se apontem logo desvalorizados e imputados a “tiques” corporativistas de alguns “velhos de Restelo”, avessos a mudanças.
Mas, “et pour cause”, essa reflexão lúcida e serena é ainda mais necessária, tanto mais que importa apontar caminhos que alertem para soluções ditadas mais pela necessidade de confronto e ruptura do que pela sua sagacidade.
Na Justiça, entrecruzam-se poderes diversos, nem todos provindos do poder político, e seria pura estultícia pretender encetar reformas sem auscultar aqueles que as podem protagonizar.
Assim, começando pelos defeitos, diria, desde logo, que desagrada a metodologia encontrada.
Como já se escreveu aqui em baixo, percebe-se mal como a instituição parlamentar é condensada em dois representantes únicos que a vinculam com duas assinaturas.
Depois, quanto à substância, é manifesta a continuada ausência de um conceito estratégico para a Justiça.
Falta harmonia sistemática no que se propõe mas, sobretudo, percebe-se a o carácter retalhado e fragmentário do que se decidiu, tributário de uma negociação parcelar e sem uma visão de conjunto, que é essencial.
Daí que surjam propostas puramente de detalhe, como o número de horas de duração de um interrogatório judicial, a par de outras como as relativas à modificação do estatuto de jubilação que, como também já se disse, nada têm a ver com a reforma da justiça e parecem entroncar apenas numa saga persecutória contra direitos sócio-profissionais das magistraturas.
Lamenta-se ainda, a par das três ressalvas apontadas oportunamente pela Associação de Juízes, a ausência de uma proposta consistente e concreta para a reforma da acção executiva, principal factor de congestionamento dos tribunais, ou o carácter timorato das soluções para a simplificação processual, não assumindo novos paradigmas nas nossas leis processuais.
Critique-se ainda a adopção de um irracional sistema de quotas no acesso ao Supremo Tribunal, impedindo objectivamente o acesso dos juízes à promoção na carreira, em beneficio dessa inefável classe emergente e que nasce já com dúbios privilégios, a classe dos “juristas de mérito”.
Para já, segundo o pacto, esta classe dos “juristas de mérito” verdadeiramente protegida pelo sistema tem apenas uma característica conhecida: não pode albergar, no seu abençoado seio, magistrados.
Será caso para proclamar “Vade Retro, Satanás!”.
Finalmente, registe-se ainda, como foi já ventilado, a indefinição de uma verdadeira politica criminal, a necessitar de delimitação em lei quadro, e a ausência de uma assunção de responsabilidades concretamente definidas no combate resoluto à corrupção.
Esta é uma matéria decisiva no quadro do Estado de Direito e não devia ter sido esquecida.
A crédito, perfilam-se, contudo, itens preciosos.
A saber, sem demasiada exaustividade, desde logo, o reconhecimento do papel fulcral do Conselho Superior da Magistratura, afirmando a sua autonomia e assumindo o compromisso de o dotar dos meios que permitam torná-lo realmente actuante como eixo central do sistema judiciário.
A racionalização do sistema de recursos, sabendo nós que a sua proliferação “ad nauseam” é um forte entrave à realização da Justiça particularmente no que concerne aos processos envolvendo os denominados poderosos. A par disso, o esforço de dignificação do Supremo Tribunal de Justiça através do condicionamento dos recursos a apreciar por este.
A introdução da ideia de gestão no funcionamento dos tribunais, com a adopção de mecanismos que estimulem a produtividade e a eficácia.
A separação na formação entre as magistraturas judicial e do Ministério Público, assumindo a diversidade imensa das respectivas funções.
A reforma do “segredo de justiça”, não optando pela solução fácil de dele isentar os jornalistas.
A criação do regime de mediação no processo penal.
Como apontamento final, importa sublinhar a necessidade de uma intervenção enérgica e fundamentada por parte dos agentes de justiça, muito em particular dos juízes, designadamente através da sua Associação, na fase decisiva que se inicia relativa à concretização, em letra de lei, das linhas de força deste Pacto.
O carácter, por vezes excessivamente vago e impreciso, do Pacto, que até se compreende, mais nos remete para a importância do momento da sua concretização.
Saibamos nós, particularmente aqueles que podem institucionalmente fazer ouvir a sua voz, em cada momento, apontar publicamente as orientações que melhor defendam a eficácia do sistema, visando sempre melhor servir os cidadãos.
Sobre o Pacto Para a Justiça cozinhado entre o PS e o PSD – ao que parece com o beneplácito presidencial – na opacidade das sedes partidárias, já ouvi o desvairado argumento de que não era razão para alarme porque o fim prosseguido por aqueles partidos – o conseguir impor aos demais partidos com assento na Assembleia da República e aos cidadãos em geral os seus pontos de vista sobre a Justiça (coisa em si mesma legítima) – sempre seria alcançado pelo jogo das maiorias parlamentares. Ou seja, o alarido seria no mínimo supérfluo e traduziria, por assim dizer, uma certa “dor de cotovelo” dos enjeitados.
A miopia deste argumento talvez se alcance melhor com a transposição dele para a própria Justiça em acção. Pense-se, por exemplo, num arguido detido em flagrante num assalto. Nesse caso, de acordo com os nossos pragmáticos dirigentes partidários pactuantes, o juiz e o MP poderiam acordar, tal a evidência de culpa do larápio, em que a pena, digamos de 4 anos de prisão, seria imposta por mero despacho e que o MP não recorreria. Prescindia-se da audiência, que é uma chatice, e das formalidades inerentes. O defensor e o arguido, é claro, ficariam de fora. O Pacto serve não só para evitar os meios que ordinariamente se usam em democracia, mas também para afastar os renitentes da discussão, que é a alma de tal regime. É óbvio, por isso, que se não houvesse renitentes – reais ou potenciais – não havia Pacto, que era desnecessário; mas, como não é menos óbvio, a ausência de renitentes é, não raro, a marca de contraste (e ao menos) da degradação da democracia.
Esta paródia não passa disto mesmo, de uma paródia. Nunca, que eu saiba, na história do nosso regime democrático, quem quer que seja foi condenado sem respeito pelo elementar direito a uma audiência de julgamento. Os nossos juízes, o nosso MP e os nossos defensores parecem ter compreendido desde sempre que, em democracia, os meios não são um pormenor. A qualidade deles dita, em não pouca medida, a legitimidade dos fins.Mas que há paródias na política, lá isso há . . .
O pacto constituiu mais uma vitória da partidocracia sobre a democracia: a corporação dos políticos, em vez de produzir actividade legislativa parlamentar com toda a transparência, segundo as regras que o próprio Parlamento aprovou, optou pela opacidade de um acordo elaborado em segredo, por meia dúzia de pessoas.
A celebração do acordo não seria grave, per se, se as partes outorgantes não tivessem já anunciado que a (necessária) discussão dos termos do acordo em sede parlamentar apenas visa a recolha de apoios e não a sua eventual correcção para encontrar soluções porventura mais eficientes.
Trata-se de uma manifestação de arrogância partidária no seu melhor, que menospreza, porque vincula, o próprio órgão de soberania com função legislativa. O Parlamento aparece reduzido a mera correia de transmissão e caixa de ressonância de algumas cúpulas partidárias. Acentua-se, ainda mais, a vertente partidocrática do regime.Nos próximos dias - no caso de surgir tempo disponível para o efeito - alguns aspectos do «Pacto» serão analisados no Blog de Informação, adiantando-se, desde já, algumas observações:
a) a revisão do Código Penal corre o risco de - contrariamente ao desejado - aumentar a criminalidade;
b) a revisão do Código de Processo Penal revela claras insuficiências, não tendo sido devidamente aproveitadas as propostas do projecto «Tribunal XXI» que teriam como consequência um aumento significativo da eficiência da administração da justiça, acompanhado de um aumento também significativo das garantias judiciárias;
c) a mediação penal a nível nacional é inexequível a curto e médio prazo;
d) quanto à acção executiva, o aspecto positivo a salientar, com implicações a curto prazo, é... o «regresso ao passado» para os exequentes que sejam pessoas singulares, passando estas a poder recorrer aos oficiais de justiça para assegurar as funções de agente de execução;
e) no tocante à reforma dos recursos cíveis, a solução encontrada continua a não combater a litigância temerária;
f) quanto à revisão do mapa judiciário, apenas se destacam, como novidades, uma maior flexibilidade na gestão dos meios humanos e materiais, com menores custos financeiros, a extinção do Tribunal da Relação de Guimarães e a criação do Tribunal da Relação de Faro (será, mais uma vez, só no papel?...), nada sendo esclarecido quanto a aspectos essenciais e concretos da nova organização judiciária, que permitam aferir a sua adequação à realidade e, consequentemente, a sua eficácia;
g) relativamente ao regime de acesso à Magistratura, saúda-se a abolição do período de dois anos que actualmente se interpõe entre a conclusão da licenciatura e a entrada no CEJ e a filosofia de maior formação específica para a judicatura;
h) no tocante ao Estatuto dos Magistrados Judiciais, apenas se constata o seguinte: i) não foi introduzido o modelo de carreira plana que ainda há poucos dias foi anunciado pelo Ministro da Justiça; ii) optou-se, sem qualquer fundamento, por excluir o C.S.M. do recrutamento dos magistrados judiciais do STJ e das Relações; iii) não se percebe, ainda, a inclusão de um Professor Catedrático no júri que apreciará publicamente os candidatos às Relações, uma vez que não está prevista a entrada de "juristas de mérito", além dos juízes, nos Tribunais de segunda instância; iiii) não foram clarificados os critérios de aferição dos currículos dos candidatos aos tribunais superiores; iiiii) dominam preocupações de ordem financeira nas alterações propostas para os estatutos da aposentação e jubilação (que nada têm a ver com «a reforma da justiça»; iiiiii) diminuem os direitos dos Magistrados, sendo mantidas as suas obrigações que, nalguns casos, apenas faziam sentido há mais de cem anos e outras... há cerca de meio século.
Continua a desprezar-se a formação contínua ou permanente dos Magistrados, não sendo a mesma contemplada no acordo político-partidário.
i) saúda-se a consagração do regime de autonomia administrativa e financeira para o Conselho Superior da Magistratura.
Lamenta-se que (todos) os Tribunais não beneficiem também de idênticas autonomias, tão necessárias à eficiência da sua gestão.
Finalmente, constata-se que o acordo é praticamente omisso em relação à organização do Ministério Público e à advocacia, áreas que também estão carecidas de intervenção legislativa.
Em conclusão: trata-se de um Pacto criticável quanto à forma assumida na sua divulgação - por menosprezar, ostensivamente, a função legislativa do Parlamento - e insuficiente, em termos substanciais, por ignorar algumas soluções modernas, há muito preconizadas pelos profissionais do foro, que apresentam a tão desejada e necessária potencialidade reformista e que permitiriam um aumento significativo da eficiência da administração da justiça portuguesa, com um reforço das garantias judiciárias do cidadão.
O Bloco de Esquerda (BE) anunciou hoje que está a preparar num projecto de lei para a criação de juízes sociais, para dirimir conflitos laborais, aliviando os Tribunais de Trabalho.
Durante a sessão de hoje da Marcha pelo Emprego, promovida pelo BE, o deputado Francisco Louçã explicou que a proposta ainda está a ser preparada, mas o documento final irá prever a transposição para o sistema legal português de um modelo que já existe em França.“É uma solução semelhante aos Julgados de Paz, mas vocacionados para os problemas laborais”, disse o coordenador da comissão permanente do BE, que espera a aprovação desta proposta pela maioria socialista, já que irá “ultrapassar muitos dos problemas da actual legislação”.
Na marcha, participa uma antiga trabalhadora do Intermarché de Leiria, Cristina Coelho, que ganhou processos contra os seus antigos patrões, a quem acusa de terem promovido o seu despedimento por ser dirigente sindical. Para Francisco Louçã, o caso desta trabalhadora é um “exemplo dos problemas da actual legislação laboral”, que permite aos patrões não reintegrarem funcionários, apesar das ordens judiciais nesse sentido.
“O direito do trabalho criou uma excepcionalidade que permite que as ordens do tribunal não sejam cumpridas”, considerou Francisco Louçã.
Os futuros juízes sociais serão nomeados pelos tribunais, seguindo um modelo de escolha que poderá passar pelo acordo prévio das entidades patronais e organizações sindicais. “Queremos que tenham legitimidade e poder de actuação” de modo a “resolver problemas e acelerar as soluções”, impondo o cumprimento da lei às empresas.Pequenos atrasos nos salários, despedimentos, a imposição do “sexto dia de trabalho” ou “inspecções médicas intromissoras da privacidade” dos trabalhadores são alguns dos problemas que estes novos juízes poderão resolver, caso sejam chamados por uma das partes.
A passagem do BE pela Marinha Grande é também marcada pela homenagem ao sindicato vidreiro, nomeadamente num período em que o sector enfrenta mais uma grave crise, com encerramento de empresas.
“A Marinha Grande é um local muito simbólico na luta pelos direitos do trabalho” e a opção de realizar aqui a marcha é também uma forma de “percorrer os caminhos das dificuldades” que muitos desses operários viveram, explicou Francisco Louçã.
Seguindo ao som várias músicas de intervenção, a marcha entre Leiria e a Marinha Grande contou com a participação de meia centena de bloquistas, entre os quais vários dirigentes, como Fernando Rosas.


Fonte das imagens: Público Online

Os autarcas reagiram mal à proposta da nova Lei das Finanças Locais. Porque alguns receberão menos dinheiro. Porque não gostam dos limites ao endividamento municipal. Mas também porque o novo regime os irá responsabilizar mais.
A nova lei permitirá às câmaras prescindirem de uma parcela da cobrança do IRS sobre os habitantes do concelho (dos 5% que lhes estão atribuídos, podem abdicar até três pontos percentuais). E as câmaras poderão cobrar mais taxas sobre os serviços que prestam.
Não surpreendeu a reacção dos autarcas. A possibilidade de variar a taxa do IMI (Imposto Municipal sobre Imóveis) já existe e é pouco utilizada pelas câmaras. É cómodo não ter o ónus político de lançar impostos e ficar apenas com os louros pela obra feita com o dinheiro deles. Mas uma apreciação séria dos autarcas pelos eleitores não pode limitar-se a avaliar os benefícios dessa obra ou a compará-la com eventuais aplicações alternativas. Tem de incluir, também, a ponderação do seu custo, isto é, do dinheiro que para tal sai do bolso dos contribuintes - tanto quanto possível, do bolso dos habitantes do concelho. Este é apenas um exemplo do clima de irresponsabilidade geral entre nós instalado. Outro exemplo é a aversão visceral dos sindicatos da função pública (incluindo professores) a qualquer modalidade séria de avaliação. Dessa detestada avaliação faz também parte a concorrência, a avaliação pelo mercado. Pôr escolas, câmaras ou funcionários a competir é anátema para muita gente em Portugal. A própria concorrência entre empresas, tão exaltada por empresários quando o comunismo ameaçava, é hoje às vezes combatida por alguns deles quando a competição lhes bate à porta.
Num país que viveu mais de 40 anos com o regime do condicionamento industrial (travando a entrada de novas empresas em sectores onde já existissem unidades instaladas), não espanta que a lei da concorrência de que numerosos empresários e gestores gostariam seja a que exalta o mercado, excepto quando prejudique as suas empresas, que consideram sempre casos especiais.
Atenção: o mercado não recompensa sempre o mérito. Um grande esforço empresarial pode ser destruído em meses por factores que o empresário não controla - como ter-se descoberto algures um novo produto ou um novo processo de produção, tornando obsoleta a aposta desse empresário.
Mas, pelo menos, o mercado castiga geralmente o gestor que não se preocupa com a competição e por isso descura a produtividade. Ora é essa quota de responsabilidade e risco que torna o mercado tão impopular em Portugal. No plano político, vimos o balúrdio que a Câmara de Lisboa terá de pagar a Frank Gehry pelo anteprojecto elaborado para o Parque Mayer. Uma ideia abandonada, por ser financeiramente inviável. Leviandade de Santana Lopes, ex-presidente da câmara, que terá avançado para a caríssima encomenda sem um estudo prévio e a ponderação que o caso merecia. Ou seja, mais uma manifestação de irresponsabilidade na política autárquica.
Mas não só: o facto de os políticos serem eleitos para mandatos relativamente curtos estimula-os a assumirem pesados compromissos que terão de ser honrados pelos seus sucessores. Acontece nas câmaras, onde o presidente que chega apanha frequentemente um susto perante a real situação financeira da autarquia. E acontece também a nível nacional.
Os megaprojectos da Ota e do TGV poderão animar a construção civil durante os próximos anos, com isso beneficiando politicamente os actuais governantes. Mas ameaçam uma factura de pesadelo para futuros governos (factura política, pois o dinheiro sairá sempre do nosso bolso de contribuintes).
Como limitar esta fonte de irresponsabilidade? Através de uma maior atenção de todos nós, eleitores. É verdade que andamos distraídos, pensando sobretudo no imediato e não tanto no longo prazo. Mas há sinais de que a irresponsabilidade política nem sempre consegue escapar impune.
Não parece que a maioria dos portugueses tenha ficado entusiasmada com as prestações camarárias e governativas de Santana Lopes. Por isso ele terá alguma dificuldade em retomar a carreira política interrompida em 2005.
E Guterres, inteligente como é, percebeu há muito que a opinião pública não esquece o desapontamento que teve com a sua passagem pela chefia do Governo. Daí que não se haja candidatado à Presidência da República. A impunidade política tem, afinal, os seus limites. Era bom que fossem mais