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O Procurador Geral da República, Fernando Pinto Monteiro, vai apresentar na próxima terça-feira, dia 20, às 18h30, «Justiça à Portuguesa», de Mário e Fernando Contumélias (Livros d´Hoje). A apresentação irá decorrer na sala Amália do CCB, em Lisboa.
Além de Fernando Pinto Monteiro, a apresentação vai contar com o Bastonário da Ordem dos Advogados, António Marinho Pinto, e o magistrado José Sérgio Calheiros da Gama.
«Qual o estado da Justiça em Portugal foi a pergunta que deu origem a este livro no qual se reúnem 22 depoimentos dos principais envolvidos na Justiça, desde o PGR ao Bastonário dos Advogados, mas também a jornalistas, magistrados e alguns dos envolvidos como Isaltino Morais e Carlos Cruz», refere a editora Livros d´Hoje.
Os autores referem que o objectivo de «Justiça à Portuguesa» «não era produzir uma tese, mas dar ao leitor elementos suficientes para uma reflexão fundamentada, que lhe permitisse estabelecer o seu próprio juízo».
A obra aborda vários temas subjacentes à Justiça, como «deficiências organizacionais», «falta de meios humanos e técnicos», «excesso de leis» e «demora dos processos judiciais, com o seu arrastamento no tempo».
Uma das conclusões que podemos retirar é que poderá existir «duas justiças, uma para os ricos e outra para os pobres». Como afirma o Bastonário dos Advogados, «basta olhar» para as prisões portuguesas, onde «99 por cento dos que lá estão são pobres».
Diário Digital
Ferreira Girão, vice-presidente do Conselho Superior da Magistratura (CSM), disse, esta sexta-feira, à TSF concordar com a ideia do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público de criar um órgão consultivo para a Justiça, presidido pelo Presidente da República.
Ao contrário da Associação Sindical dos Juízes que se mostrou contra, o vice-presidente do CSM aplaudiu a ideia de criar um órgão consultivo para resolver os problemas da Justiça, frisando que esse órgão pode ser útil em várias áreas.
«Por exemplo, na implementação do mapa judiciário», já que nas três comarcas piloto têm existido problemas, como haver juízes mas não existir funcionários, afirmou Ferreira Girão.
«Concordo com todas as medidas que sejam destinadas a uma melhoria da Justiça», acrescentou, defendendo «uma maior sincronização de todos os chamados problemas judiciários».
TSF
A Justiça brasileira penhorou 1,19 mil milhões de reais (437 milhões de euros) da Companhia Siderúrgica Nacional, dos quais faziam parte 685,2 milhões de reais (cerca de 250,5 milhões de euros) que seriam hoje utilizados para pagar os dividendos aos accionistas.
A Justiça brasileira penhorou 1,19 mil milhões de reais (437 milhões de euros) da Companhia Siderúrgica Nacional, dos quais faziam parte 685,2 milhões de reais (cerca de 250,5 milhões de euros) que seriam hoje utilizados para pagar os dividendos aos accionistas.
Os 1,19 mil milhões de reais penhorados à CSN, proprietária da empresa portuguesa Lusosider, são referentes ao pagamento de um imposto de renda devido pela empresa.
A empresa brasileira alega que já pagou este imposto mas a Receita Federal não aceitou a forma de pagamento usada e a dívida acabou por ir para execução fiscal em 2006.
De acordo com o "Estadão", esta disputa judicial já se prolonga desde 2000 e tem sido conduzida pela Procuradoria Geral da Fazenda Nacional no Rio de Janeiro.
Enquanto persiste uma estranha omissão geral no importantíssimo debate público sobre a reforma do mapa judiciário, acaba de ser repescado o tema, algo gasto, da contingentação processual.
Com esta, que parece ciclicamente ressuscitada como manobra de diversão, pretender-se-ia ver fixado por decreto o volume de processos que cada magistrado pode, num dado período de tempo, ter a seu cargo. Limitar-se-ia, assim, a atribuição de novos processos para além desse volume.
Se bem entendo, uma vez preenchido o contingente de cada magistrado, cada novo processo que lhe devesse ser atribuído ficaria em lista de espera até abertura de vaga na respectiva quota de capacidade. No panorama actual da justiça portuguesa, com as suas várias assimetrias (des)organizativas, a ideia é, entre outras considerações, virtualmente inútil e especialmente perversa.
É inútil por já existir uma óbvia "contingentação natural", avulsa, que corresponde à capacidade individual de produção de cada magistrado, cuja maior ou menor utilização, enquanto métrica de avaliação do desempenho e distinção individual, é muito pouco ou nada valorizada nas inspecções e classificações de serviço dos juízes. Depois é ainda mais inútil porque, alimentada por esta desvalorização da produtividade, está sedimentada uma outra contingentação, artificial, qualificável como "contingentação funcional espontânea". Filha da convicção geral de que o esforço individual acrescido não oferece qualquer prémio, esta contingentação, instintiva e dissimulada, dita que basta que a comarca não pareça afundar-se muito mais para que também não haja qualquer penalização na classificação de serviço. Ligando a condição humana da magistratura judicial - a mais castigada das profissões do foro - às piores entro- pias do sistema, esta contingentação é estatisticamente verificável pela existência de um bitola média apontando que, independentemente da enorme disparidade do número e natureza de processos entrados anualmente em cada tribunal, o número dos que anualmente findam tende a fixar-se sempre entre 90% a 95% daqueles. Isto é, se numa qualquer comarca onde entrem mil processos é quase certo que o número de processos findos no mesmo ano estará entre 900 e 950 e numa outra comarca onde entrem 500 processos é quase certo que no mesmo ano o número de processos findos só estará entre 450 e 475, já numa terceira comarca onde entrem apenas 200 processos não é menos certo que o número de processos findos não será, como abstractamente podia e devia ser, de 900 ou 950, nem de 450 ou 475, mas apenas de 180 ou 190.
Finalmente, a ideia é ainda especialmente perversa quer por se limitar a cuidar de efeitos pontuais e não das causas do mal, quer por reforçar a evidência trágica de que o sistema, ao contrário do que devia, não está voltado para servir as necessidades dos cidadãos, seus destinatários, mas está construído em função dos que nele actuam profissionalmente.
In DN
O Clube dos Pensadores anunciou hoje que vai realizar na segunda-feira, dia 2 de Abril, um debate dedicado ao tema ‘Justiça e Trabalho’ que contará com a presença do antigo candidato a Presidente da República, Garcia Pereira.
De acordo com o comunicado hoje emitido, o Clube adianta que o debate – o quarto do terceiro ciclo de debates – será realizado em Gaia, no Hotel Holiday Inn, no dia 2 de Abril, com o início agendado para as 21h30.
O debate contará com a presença do advogado, professor universitário e antigo candidato a Presidente da República, Garcia Pereira, contando ainda com o habitual moderador e interveniente, o biólogo e fundador do Clube, Joaquim Jorge, assim como o convidado da plateia, o bancário e membro do Clube, Nuno Linhares.
“Os direitos liberdades e garantias dos cidadãos estão postos em causa em alguns domínios na área do Trabalho. O cartão único, sendo um modo de desburocratizar pode porventura ser um meio de informação que pode ser utilizada para outros fins. Os funcionários públicos a serem utilizados como moeda de troca. Precariedade no emprego. O centro de acção do Estado Social. O direito a reclamar e a resistir. A constante perde de direitos sociais e a perda de garantias fundamentais do bem-estar e da sobrevivência. O Estado não é uma empresa que tenha que dar lucro, deve haver o primado das pessoas sobre a economia”, afirma o fundador do Clube dos Pensadores.
“O poder judicial na sua dignidade e credibilidade deve ser reforçado perante os portugueses. Deve evitar-se a prescrição dos processos, uma vez que a morosidade nos processos é um cancro no sistema”, sublinha o biólogo.
“Reforçar os meios a fim de assegurar a independência funcional efectiva de juízes e procuradores. É lamentável que se pense que aqueles que têm poder económico e influência tenham o privilégio de ludibriar a justiça. É, por isso, necessário existir um relacionamento aberto e transparente, em condições de igualdade. A ideia que passa que não se faz justiça e a dificuldade de acusar e condenar os prevaricadores é um mal endémico da vida pública (como um facto consumado) que corrói a democracia provocando um descrédito nas instituições”, acrescenta Joaquim Jorge em comunicado.
No final do debate Garcia Pereira estará à disposição dos seus jornalistas para falar da sua candidatura à Ordem dos Advogados e da política actual.

O Ministério da Justiça (MJ) paga serviços de apoio judiciário a advogados oficiosos sem confirmar se foram prestados. A acusação é do Tribunal de Contas (TC). Esta entidade fiscalizadora dos dinheiros públicos estranha que em 2005 as defesas oficiosas tenham diminuído 14%, e os honorários tenham aumentado 41%, correspondente a 20 milhões de euros a mais. Os números são claros. Os serviços prestados em 2005 pelos advogados oficiosos baixaram 14,4%, relativamente a 2004, representando menos 22 311 nomeações em todo o País. Mas o montante de honorários pago pelo Estado aumentou 41% de um ano para o outro. Assim, o custo com as defesas oficiosas passou de cerca de 26 milhões para 45 milhões de euros. Estes números foram confirmados pelo bastonário da Ordem dos Advogados (OA), reconhecendo que quase não houve oscilações entre os anos 2003 e 2004, em que os custos rondaram os 25 milhões de euros, mantendo-se a média de 116 mil nomeações naqueles dois anos. Segundo Rogério Alves, a discrepância relativamente a 2005 deveu-se à acumulação de honorários em atraso, de vários anos, que começaram agora a ser liquidados pelo Instituto de Gestão Financeira e Patrimonial da Justiça (IGJPJ).
O Tribunal de Contas regista o aumento, e lembra que em 2005 o ministério retirou aos secretários judiciais o pagamento das defesas oficiosas, feito pessoalmente nos tribunais. Essas funções foram transferidas para o IGFPJ - através de requerimento que o advogado dirige a esse organismo para solicitar o pagamento.
Segundo o TC, alguns advogados incluem no requerimento a assinatura da pessoa defendida, assim como algumas observações sobre o processo judicial que assumiu. Porém, a maior parte apenas solicita honorários, juntando cópia do ofício relativo à sua nomeação pela Ordem dos Advogados.
"Ora, a simples declaração de que foi prestado um serviço, sem a sua suficiente caracterização que permita verificar que, efectivamente, foi prestado, não serve para comprovar a existência de um crédito", afirma o TC, alertando: "O IGFPJ não definiu quaisquer mecanismos para controlar a efectiva prestação dos serviços que pagou."
Este aumento de custos, versus diminuição de serviços, segundo o TC, verifica-se também ao nível da consulta jurídica prestada pelos advogados oficiosos. Diz o TC que "embora o número de consultas tenha diminuído, cerca de 13% entre 2004 e 2005, os encargos com os apoios logísticos aumentaram, passando o custo médio da consulta de 25 para 35 euros. Em 2004 registaram 6853 consultas que custaram ao Estado 19 mil euros. Em 2005 foram 5206, e o custo foi de 21 mil euros. Em suma, o TC registou que entre 2003 e 2005 o Estado gastou com o apoio judiciário e consulta jurídica cerca 40 milhões de euros por ano, incluindo toda a logística, e pediu ao MJ e à OA explicações.
Rogério Alves refuta que alguém possa pensar que os advogados recebam sem trabalhar. "O contrário, no entanto, é verdade", garantiu.O IGFPJ, instado pelo DN, esclareceu que os 45 milhões de euros gastos em 2005 se devem ao pagamento de dívidas anteriores. Informou também que, desde o Verão de 2006, tem em funcionamento uma nova aplicação informática em que as notas de honorários são processadas em cada tribunal, sendo o pagamento feito pelo IGFPJ. "Este novo procedimento acelera o processamento e pagamento, reforça o grau de controlo ", disse.
In DN
Ao apostar em alternativas aos tribunais comuns, o Ministério da Justiça (MJ) admite criar um sistema de justiça ao domicílio. A experiência vai ser feita no âmbito da mediação familiar, com os mediadores a deslocarem-se à residência das pessoas para aí promoverem um acordo entre as partes em conflito. A revelação foi feita ontem pelo secretário de Estado da Justiça.
"Vamos realizar a mediação familiar em estruturas que já existem, em serviços públicos, julgados de paz, centros de arbitragem, municípios, freguesias, e até nas casas das pessoas se nos disserem que isso é mais conveniente para resolver o litígio. É também uma hipótese que não descartamos", afirmou João Tiago Silveira ao DN no final de uma acção de formação para juízes de paz que decorreu ontem na Direcção- -Geral da Administração Extrajudicial (DGAE), em Lisboa.
A mediação familiar como alternativa aos tribunais de família - apenas possível quando os litigantes acordam usar essa via - já existe desde 1999. Porém, está circunscrita ao distrito de Lisboa, e apenas aplicada quando se trata da regulação do poder paternal, ou do incumprimento do exercício desse poder.
Mas em breve "o âmbito da competência da mediação familiar vai ser alargado a todos os conflitos que afectam as relações familiares", revelou o secretário de Estado, anunciando que o âmbito territorial vai, igualmente, ser alargado a outros três distritos, sem revelar quais.A mediação familiar funciona actualmente na DGAE. Trata-se de um método simples de resolução de litígios parentais, sem grandes burocracias. Quando as partes envolvidas acordam seguir esta via, para fugir aos tribunais de família, mais formais e demorados, entra em acção um mediador da DGAE - geralmente jurista - que tenta promover um acordo. Cabe aos litigantes construírem uma decisão justa.
Mas se até agora as pessoas tinham de se deslocar à DGAE, o MJ vai abrir a possibilidade de os mediadores da DGAE passarem a ir a casa das pessoas. "Sempre que se achar que isso é o mais conveniente para as famílias", assegurou ao DN o secretário de Estado da Justiça. A mediação é um sistema de resolução de conflitos que foge à justiça tradicional. A política do Governo tem sido a de retirar dos tribunais as chamadas "bagatelas jurídicas". Conforme referiu ontem João Tiago Silveira, os tribunais "têm cada vez menos espaço para justiça das pessoas singulares". Ou seja, cada vez mais o sistema judicial tradicional está colonizado pelas empresas e pela grande criminalidade. Neste sentido, a mediação extrajudical começou já a abranger várias áreas , nomeadamente a laboral e a penal, sob o controlo do poder político.
In DN
As associações sindicais manifestaram-se surpreendidas com as declarações do ministro da Justiça, Alberto Costa, que, em entrevista publicada ontem no Correio da Manhã, acusou os sindicatos de terem “posições desfavoráveis e opostas ao interesse público” e, frequentemente, fazerem “pensar que se está perante organizações políticas”.
O presidente da Associações Sindical dos Juízes Portugueses (AS-JP), António Martins, criticou as declarações do ministro dizendo que este demonstrou “uma visão pouco democrática da sociedade”.
Em sua opinião, a perspectiva de Alberto Costa de reduzir a área de intervenção na sociedade às organizações políticas “é um erro muito profundo”. E isto porque os sindicatos não se limitam a defender os socioprofissionais, apresentam também propostas para resolver os problemas da Justiça e, portanto, do interesse público. Aliás, disse, seria “inadmissível” se assim não fosse. Para o juiz, as soluções e propostas das organizações sindicais, nomeadamente aquela a que preside, não são meramente corporativas, têm “sentido crítico” e servem o interesse público.
CLUNNY CRITICA
Instado pelo CM a pronunciar-se sobre o assunto, o presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público (SMMP), António Cluny, afirmou que se recusava a entrar em polémicas porque havia questões mais importantes para se discutir. No entanto, ao fim do dia, o procurador-geral adjunto inseriu no site do sindicato um editorial que se refere à polémica. Aí, António Cluny considera que as declarações de Alberto Costa “são, no mínimo, contraditórias” e “equívocas”. “Quando os sindicatos se limitam a defender simples interesses socioprofissionais têm sido considerados por este Governo como corporativos e restritivos na sua análise e posições. Quando tentam enquadrar a sua acção e os seus pontos de vista numa perspectiva mais abrangente que procure reflectir o chamado interesse global, comum e público, são, agora, acusados de intervirem politicamente”, pode ler-se no editorial.
António Cluny recorda que posições deste tipo sobre a acção dos sindicatos e, em geral dos movimentos associativos, não são novas. “Embora noutro contexto, eram, de facto, referidas amiúde no antigo regime pelos responsáveis políticos de então. Para eles, toda a manifestação de pontos de vista contrários à governação consistia, em regra, numa manipulação política e numa actuação a soldo de interesses inconfessáveis. Para eles também só o Governo sabia e podia interpretar legitimamente o interesse nacional”, escreve Cluny no editorial.
FUNCIONÁRIOS CRITICAM
O Sindicato dos Funcionários Judiciais também repudiou as afirmações do ministro. “Rejeitamos e repudiamos esse tipo de comentário. Não temos nenhuma conotação política e partidária. Somos um sindicato independente com boas relações com todos os partidos políticos, o que é normal em termos institucionais”, afirmou Fernando Jorge, presidente do sindicato. O responsável salientou que o sindicato defende os direitos dos trabalhadores, mas, ao mesmo tempo, procura contribuir para uma efectiva melhoria do sistema de justiça, com apresentação de propostas concretas. “Se isto é ter uma atitude política, enfim...”, acrescentou.
FRASES DA DISCÓRDIA
"Em certas circunstâncias, as posições expressas por essas organizações [sindicatos]... são desfavoráveis e opostas ao interesse global, ao interesse comum, ao interesse público."
"É verdade que frequentemente as tomadas de posições sindicais fazem pensar que estamos perante organizações políticas que deveriam submeter-se a sufrágio para verificar se sim ou não o eleitorado confirma esses pontos de vista." Alberto Costa, ministro da Justiça
Alberto Costa, Ministro da Justiça, satisfeito por estar a domar o monstro da Justiça, fica surpreendido com a reacção dos sindicatos. Polémico, considera que defendem posições contrárias ao interesse público e que actuam como organizações políticas. Por isso, diz, deviam ir a votos. Gosta do estilo de Sócrates e não tem dúvidas de que este é mesmo o seu PS.
Correio da Manhã – Quando foi ministro da Administração Interna ficou célebre uma frase sua: “Esta não é a minha polícia.” E esta Justiça? É a sua Justiça?
Alberto Costa – Essa frase nunca foi proferida por mim. Foi-me realmente atribuída, mas o próprio semanário que a publicou como tendo sido minha veio a reconhecer expressamente que não era minha.– Foi um período muito complicado para si, muito difícil mesmo.– Foi um período de mudança, de transformações, de iniciativa, que globalmente marcarou a evolução do sector, mas que também foi uma experiência muito significativa para mim.
– E esta Justiça? O monstro, como lhe chamou. Esta semana afirmou que o monstro começou a ser finalmente atacado. Mas esta Justiça é ou não a sua Justiça?
– É preciso fazer mudanças e transformações neste sector e o Governo está empenhado em fazê-las. Governar é sempre procurar melhorar, introduzir modificações positivas e é nessa linha que temos vindo a actuar. Mas o problema fundamental que referiu é o de na última década ter havido um crescimento constante, à razão de cem mil processos por ano, do volume das pendências, e tornava-se muito importante inverter esse processo, evitar que o monstro continuasse a crescer. E realmente em 2006, em função de um conjunto de medidas, de um plano de combate ao congestionamento dos tribunais, essa tendência inverteu-se e embora a descida não seja tão significativa como desejaríamos, na casa dos cem mil processos, é um sinal de inversão. E se nada tivesse sido feito haveria mais cento e vinte mil processos. Era assim que os últimos anos estavam a correr. É por isso que a mudança é muito animadora, embora exija muito trabalho e persistência para continuar a acentuar-se.
– Mas na última década tomaram-se muitas medidas, tanto pelo PS como pelo Governo do PSD/CDS. Falharam todas?
– Na última década houve planos, houve esforços, houve iniciativas mas que não se traduziram em resultados concretos.
– Mas os números que apresentou são fiáveis?
– São números de um organismo com poderes delegados do Instituto Nacional de Estatística para o sector, são números provisórios e sei que são números estabelecidos com grande prudência, de forma que é bastante possível que os números definitivos sejam bastante melhores.
– Como é que explica a reacção negativa dos sindicatos e da Ordem dos Advogados a esses números? Ficou triste? Desiludido?
– Fico surpreendido. Porque esperaria que sublinhassem os resultados positivos destes resultados e que se associassem a eles, na medida em que resultam, em grande medida, do trabalho de todos os que trabalham nos tribunais. Mas no nosso sector instalou-se há muitos anos uma mentalidade de crise que muitas vezes perturba as reacções às boas notícias, que muitas vezes são consideradas quase como desautorizações das concepções de que se parte acerca da grande crise.
– Também considera, como o seu colega da Economia, que os sindicatos são muitas vezes forças de atraso?
– O que eu considero é que, em certas circunstâncias, posições expressas por essas organizações, que no passado se distinguiram pela sua luta por objectivos altamente meritórios, são desfavoráveis e opostas ao interesse global, ao interesse comum, ao interesse público. E quando assim é, o papel do Governo é não perder de vista o interesse comum em nome da consideração de interesses sectoriais socioprofissionais.
– Não considera que os sindicatos, nomeadamente na área da Justiça, extravasam claramente as suas competências?
– É verdade que frequentemente as tomadas de posição das organizações sindicais fazem pensar que estamos perante organizações políticas que deveriam se submeter a sufrágio para verificar se sim ou não o eleitorado confirma esses pontos de vista. Mas o importante é não confundir o interesse geral com uma interpretação muito restrita e sectorial de certos interesses, eventualmente legítimos, que não devem ser confundidos com o que interessa a todos. É por isso que existe a esfera pública, é por isso que existe a deliberação política democrática.
– O pacto de Justiça firmado entre o PS e o PSD é uma forma de o proteger a si, à sua política e às suas medidas?
– O fundamental era que um conjunto significativo de reformas legislativas fosse aprovado por um consenso alargada no Parlamento e perdurasse para lá de uma legislatura. O que muitas vezes acontece é que as reformas com um suporte político meramente maioritário são muitas vezes alteradas, substituídas nas legislaturas seguintes. Na esfera da Justiça essa falta de continuidade é absolutamente prejudicial, é absolutamente negativa.
– O pacto transformou a excepção do segredo de justiça, defendida pelo PS, numa regra. Foi uma cedência ao PSD?
– O pacto prevê uma redução do âmbito do segredo de justiça. A tendência passa a ser a publicidade e são previstas várias situações em que pode ser levantado. Em caso de conflito de posições entre vítima e Ministério Público será o juiz a decidir se aplicará ou não esse regime. O que passa a ficar esclarecido é que o segredo de justiça, nos casos em que se aplica, vincula não só as partes que têm contacto directo com o processo como também aqueles que contactam com elementos constantes do processo.
– Mas um jornalista que esteja a investigar uma universidade, por exemplo, sem saber que a mesma está a ser objecto de investigação policial, pode ser acusado de violação do segredo de justiça?
– Se não tem contactos com elementos do processo não está abrangido pelo que está previsto para o segredo de justiça.
– No âmbito do combate à corrupção, o pacto não prevê que o ónus da prova sobre as grandes riquezas seja do cidadão. Não acha que seria uma medida eficaz?
– O problema está em saber se num Estado de Direito se pode, e em Portugal seguramente não pode, instituir um crime que anule a presunção de inocência e que ponha a cargo do arguido a demonstração de que não tem culpa. – Mas há países que o contemplam.
– Alguns países, aliás, poucos, têm situações diferentes. Tal como foi proposto, esse crime era, até do ponto de vista das penas, equiparado à corrupção. No caso de não existir essa justificação, incorrer- -se-ia num ilícito penal com uma punição análoga à prevista para a corrupção. Em todo o caso nada disto impede que sejam encontradas soluções de natureza fiscal, como Jorge Sampaio propôs há já alguns anos.
– O procurador-geral da República afirmou que a nomeação de Maria José Morgado para o caso ‘Apito Dourado’ deu um novo impulso no combate à corrupção. Concorda?
– Eu aplaudi essa iniciativa, pareceu-me uma boa escolha e verifiquei que um grande número de pessoas concordou com essa nomeação. Acho que as escolhas personalizadas em áreas tão difíceis como é a da corrupção, a exemplo do que se passa em Espanha, por exemplo, melhoram a visibilidade e tornam esse combate mais eficaz.
(...)
– A revisão do mapa judiciário é para fazer nesta legislatura ou ficará para mais tarde?
– Está previsto que até final do ano a Assembleia da República aprove a lei que promoverá a revisão do mapa judiciário e em 2008 começará a sua implementação.
– Essa revisão levará ao fecho de alguns tribunais?
– O que nós propomos é que exista uma nova forma de funcionamento em circunscrições mais alargadas e que os respectivos tribunais tenham uma presidência única. Não estamos a prever que haja extinções de tribunais. Devem existir é ajustamentos em função do movimento efectivo em cada circunscrição.
(...)
Sempre que as televisões têm de ilustrar indiferenciadamente a burocracia no Estado é-nos oferecida uma perspectiva das secretarias judiciais. Não é, obviamente, por acaso. Desaparecidos os velhos cartórios notariais e as antigas conservatórias dos registos que jaziam esquecidas em instalações decrépitas, as secretarias dos tribunais, com os seus enormes balcões, as paredes forradas até ao tecto com pilhas dos grossos volumes que compõem os processos, por entre os quais se divisam vários funcionários em reduzidíssimo espaço, são bem a imagem da antiga repartição pública. Como lugares que deveriam ser espaços de cidadania, as secretarias judiciais parecem, porém, pensadas para se mostrarem ostensivamente inóspitas e a sua aparência sugere decrepitude e falta de organização. Além de tudo isso, ou talvez também por isso, as secretarias judiciais estão certamente entre as mais caras unidades funcionais administrativas do Estado.
Já aqui escrevi sobre o que estimo ser a necessidade urgente de percebermos que para mudar a justiça há que sacrificar primeiro a ideia de que bastam comissões de juristas e a edição do Diário da República. Além de novos sistemas alternativos e complementares, de uma diferente participação cívica, de novos modelos organizativos, de uma outra cultura de responsabilidade dos agentes públicos da justiça (incluindo naturalmente os magistrados), de novos meios e de diferentes recursos humanos e materiais, é ainda necessário empreender uma radical reengenharia de processos e procedimentos. Reengenharia que mate e enterre o paradigma oitocentista com que insistimos em viver no século XXI, com a sua índole epistolar e lógica formalista, plasmada em códigos processuais que são obras para uma ilusória harmonia perfeita de actos e prazos sucessivos, estribada na suposição de que só existiria um único processo de cada vez, para um só juiz e sua secretaria judicial, a ele dedicados em exclusividade. Nessa reengenharia os processos ganharão uma feição audiovisual e o papel será dispensado.
Aí chegados, as secretarias judiciais, esvaziadas daqueles grossos volumes, estarão transfiguradas. Com a redução de necessidades funcionais, vai ser muito menor o número de pessoas empregues, como diferente vai até ser a arquitectura dos espaços judiciais. Então, também será outra a gestão e a organização dos tribunais, dos órgãos de investigação criminal e dos restantes serviços da justiça.
Não ouso imaginar quanto tardaremos na iniciativa de avançar, nem me atrevo a antever se o próprio processo de mudança demorará anos, décadas ou ainda mais. Tenho, todavia, a ideia de que, com vontade política, podíamos começar já a experimentar algumas novidades futuras e que, por mais chocante que pareça, até podíamos ensaiar modalidades de outsorcing, entregando a prestadores de serviços especializados a gestão integral de algumas secretarias judiciais, comparando soluções, capacidade de desempenho e resultados económico-financeiros.